Sabes tu qual é a sensação de perceber que és uma das únicas, poucas e últimas lembranças da mente de uma pessoa?
Parei diante de seus olhos e fiquei, como uma estátua. Pensei logo: – Não, não como uma estátua… Porque estátuas geralmente não esboçam sorrisos. E eu sorria. Sorria àqueles olhos azuis cansados, confusos e que já não reconheciam muita coisa, que dirá pessoas.
Talvez tenha sido pelo sorriso, que as estátuas não esboçam… Talvez pelos olhos, que já não mais suportavam carregar tantas lágrimas e deixavam-nas caírem… Não sei bem porquê, mas os olhos azuis tiveram brilho por alguns instantes, o mesmo brilho que tiveram nos muitos dias de festa com pastel caseiro e família reunida na sua casa. Um sorriso se fez naquele rosto que já não esboçava reação alguma! Puxei-a para mim e seus olhos também não suportaram mais carregar as lágrimas.
Enfim, ela reconheceu-me.
E já não agüentava mais todos aqueles tubos e sondas e esparadrapos. E já não agüentava mais que ninguém ali compreendesse o que havia acontecido. Pediram-me socorro e eu nada pude fazer. O ser humano nada mais é do que um animal com as mãos amarradas e, muitas vezes, com a boca amordaçada.
Pedia-me com seus olhos para que a tirasse dali, pedia-me com seus olhos que não tivesse pena dela. E eu não tive. Senti toda a sua força em seu simples sorriso, em suas lágrimas que caiam e que ela tentava enxugar, relutantemente. Sabia que logo ela saíria dali. E saiu.
Muitas vezes, tento me perguntar se, naquele dia, o motivo de suas lágrimas era o mesmo das minhas, mas é em vão. Talvez um dia eu descubra… Ou talvez um dia ela me diga… Se eu conseguir chegar a tempo de ouví-la.





Por que não posta mais?
Esse texto, assim como todos os outros, está excelente.
f.: obrigada
estou sem inspiração… espero que volte logo.